O papel das serpentes no equilíbrio da natureza – por Marco Massao Kato

marco2Quem escreve esse post é o Marco Massao, o estagiário do Projeto Fauna que estuda répteis e anfíbios no Jardim. (Veja mais sobre ele em equipe).

Serpentes ou cobras, como são popularmente conhecidas, são répteis, animais de sangue frio e com o corpo coberto por escamas. Podem variar bastante de tamanho e forma, desde poucos centímetros (Leptotyphlops sp.) a mais de 10 metros (Python sp. da África e Ásia e Eunectes sp. as sucuris do Norte do Brasil). Em comum, todas as cobras não possuem patas, a maior parte tem hábitos noturnos, vivem solitárias e ocultas, não são agressivas e poucas possuem peçonha (veneno). Ocorrem em todo o mundo, exceto nos polos pois não toleram o frio extremo.

Uma cobrinha-cipó (Chironius sp.). Linda e inofensiva.

Uma cobrinha-cipó (Chironius sp.). Linda e inofensiva.

Na natureza fazem parte da grande cadeia alimentar natural, tanto como presa como predadores. Em sua maior parte estão no topo dessa cadeia alimentar. Portanto com um pequeno desfalque em sua população podemos ver uma superpopulação de espécies que seriam consumidos por elas.

Se alimentam, por exemplo, de roedores em geral, que, sendo bastante prolíferos se distribuem com rapidez pelo ambiente. Os roedores consomem muito e se aproveitam dos rejeitos de alimentos descartados por humanos e, com uma população aumentando, o ambiente não suportaria e seriam obrigados a invadir outros ambientes causando um verdadeiro desequilíbrio e incômodo aos humanos que vivem próximos daquela região. Por isso é importante o controle da população de ratos e outras presas pelas cobras.

A cobra-lisa (Liophis miliaris) é semi-aquática, pequena e inofensiva. Solta um líquido com cheiro ruim para se defender.

A cobra-lisa (Liophis miliaris) é semi-aquática, pequena e inofensiva. Solta um líquido com cheiro ruim para se defender.

As serpentes podem ter vários tipos de alimentação, dependendo de cada espécie. São carnívoras obrigatórias e em sua dieta podemos ter desde peixes, caramujos, lesmas, aves, ovos, pequenos mamíferos, anfíbios, lagartos e até mesmo outras cobras. A Muçurana (Clelia clelia) se alimenta de cobras com peçonha como as Jararacas (Bothrops jararaca). Os predadores mais comuns podem ser mamíferos como quati (Nasua nasua), gambá (Didelphis aurita) e o mão pelada (Procyon concrivorus) e aves como garças (Ardea sp.), gavião carcará (Polyborus plancus) e o gavião-pombo-pequeno (Leucopternis lacernulata).

A cobra-espada (Tomodon dorsatus) é pequena e inofensiva. Se alimenta de invertebrados.

A cobra-espada (Tomodon dorsatus) é pequena e inofensiva. Se alimenta de invertebrados.

Muitas lendas e crendices cercam o mundo das serpentes. “Animais gigantes com mais de 40 metros, como a Anaconda”… sendo que a maior serpente já registrada tinha pouco mais de 10 metros. Alguns dizem que esse animais “podem perseguir você”. Na verdade, o animal sempre vai tentar fugir, mas se sentir extremamente ameaçada, a cobra pode mesmo tentar investir contra um humano, apenas para se defender. Se houver espaço para fuga, logo ela irá procurar um esconderijo. Outras lendas falam que cobras como jiboias (Boa constrictor) ou sucuris (Eunectes sp.) “podem soltar bafos ou babas que deixam manchas ou envenenam”. Jibóias e sucuris não são venenosas e muito menos “babam”. Elas tem saliva como nós, que podem no máximo provocar reações alérgicas, e daí essa lenda pode ter sido criada.

Uma cobra-lisa jovem (Liophis miliaris). Bem pequena, repare o tamanho dos líquens ao seu lado.

Uma cobra-lisa jovem (Liophis miliaris). Bem pequena, repare o tamanho dos líquens ao seu lado.

O Brasil é considerado o país do mundo com a maior diversidade de serpentes, e são conhecidas hoje 386 espécies diferentes aqui, das 3 mil espécies do mundo. Somente 15% das serpentes brasileiras (57 espécies) são peçonhentas. E apenas 10 dessas habitam o estado do Rio de Janeiro. Todas são extremamente tímidas ao ambiente antrópico, preferindo matas e locais mais ermos como matas preservadas e interiores de mata, sendo raros os encontros com humanos. Ao menor sinal de risco elas fogem para se esconder em meio a folhas e galhos ou entre pedras. A maioria dos acidentes com serpentes acontece por imprudência ou imperícia do humano ao tentar manejar estes animais e em áreas rurais. Hoje em dia poucos acidentes são registrados e há menos acidentes fatais devido a melhores tratamentos médicos disponíveis e a difusão de ações de educação ambiental. A educação e informação é a melhor ação para convivermos em harmonia com os animais, principalmente quando atinge crianças.

Cobra-coral (Micrurus coralinus). Venenosa, mas é muito pequena e sua cabeça pequena a impede de morder algo maior que a pontinha de seu dedo mindinho. Portanto, não coloque a mão nela. Apenas isso.

Cobra-coral (Micrurus coralinus). Venenosa, mas é tão pequena que é impossível morder algo maior que a pontinha de um dedo mindinho humano. Portanto, não coloque a mão nela. Apenas isso.

No Jardim Botânico são raríssimos os encontros com serpentes. Em sua maioria são encontros com jiboias (Boa constrictor), que podem ser grandes, mas são animais lentos e inofensivos se não forem manejados. Mantendo eles onde estão e não se aproximando, em poucos minutos somem de vista e muitas vezes nem são percebidos pelos visitantes em suas caminhadas. Poucas espécies venenosas foram encontradas nas proximidades: cobra-coral (Micrurus sp.) e  jararacas (Bothrops sp.), ambas em áreas pouco visitadas na mata secundária acima do arboreto do Jardim, próximo ao “caminho da Mata Atlântica”.

Em suma, serpentes são mal vistas pela sociedade, devido ao estigma criado em tempos antigos. Mesmo na religião temos o exemplo da bíblia, onde a cobra é colocada como animal vil e manipulador. Ou na história da morte de Cleópatra mordida por uma Naja. E lendas e crendices passadas de geração em geração, principalmente no interior. Mas são animais fascinantes, não são perigosos de forma alguma desde que não sejam molestadas ou incomodadas.

Jararacuçu (Bothrops jararscussu). Espécie muito rara no Jardim.

Jararacuçu (Bothrops jararacussu). Espécie muito rara no Jardim.

Caso encontre alguma serpente, aí vão umas dicas:

  • Se estiver fazendo uma trilha, observe atentamente onde pisa, você está na casa dela e pode estar atravessando o caminho dela;
  • Não se aproxime e nunca tente mexer em serpentes, mesmo com galhos;
  • Não tente manipular esse animal sem conhecimento para isso;
  • Se ela estiver em movimento, deixe-a seguir seu caminho, não passe na frente, somente espere ou dê meia volta;
  • Em caso de acidente, ligue para o 192 e siga as instruções, não aplique nada nem faça torniquetes pois pode agravar a situação;
  • Se estiver no Jardim Botânico do Rio, apenas chame um guarda, ele irá nos contatar.
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Sobre Cris

Carioca, flamenguista, bióloga, primatóloga, viajante, casada. Metida a fotógrafa.
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4 respostas para O papel das serpentes no equilíbrio da natureza – por Marco Massao Kato

  1. Ana Luísa disse:

    Olá, li o artigo em busca de um esclarecimento maior sobre as cobras e na esperança de uma ajuda. Uma parte da minha família mora no interior do Rio de Janeiro, Andrade Costa, município de Vassouras, eu também já morei lá durante dois anos. Estamos vendo um aumento considerável na população de cascavéis e jararacas aqui e em toda essa região. Tivemos cães e pessoas mordidas, um enorme caso de aparecimentos delas dentro das casas, em varandas e quintais. Infelizmente não temos nenhum lugar por perto onde possamos ligar e pedir para que venham retirar o animal, assim, cada uma que aparece é morta. Mais uma vez escrevo que infelizmente esses animais são mortos, mas uma questão de preservação da saúde da população residente. Fico com muita pena em saber que elas são abatidas sempre que vistas, mas confesso que entendo ser essa é a única forma de defesa dos moradores. Já houve especialistas falando sobre o assunto e ensinando a captura-las, porém ninguém está apto para fazer tal procedimento. Estou pedindo ajuda para que me informem, se puderem, como posso ajudar na diminuição desse desequilíbrio que está acontecendo, creio eu, devido às grandes queimadas e ao enorme e crescente desmatamento da área. Como sei que ambos não cessarão, pensei em tentar estudar medidas alternativas como o estudo da fauna local para possível inserção de um predador sem que haja muito dano no equilíbrio da cadeia alimentar, ou mesmo em ações pontuais para a captura de uma quantidade de cobras…enfim, como podem perceber, estou perdida e quero muito melhorar essa situação complicada tanto para os animais silvestres, como os criados e os domesticados, além do humanos. Qualquer indicação de organizações, associações e afins será de grande valia! Desde já agradeço pelo post.

    • gabiheli disse:

      Cara Ana Luísa.
      Infelizmente esse é um dos casos muito além da nossa capacidade de auxílio.
      Sugiro legar o caso para universidades ou o museu nacional. O Instituto BUtantan ou o Vital Brasil, quem sabe, podem se interessar em ajudar.
      boa sorte.

  2. Stefanie Elidiana dos Santos disse:

    Muito legal, eu tenho pavor de cobra e medo. Aí eu fui pesquisar o porquê ela é importantes na natureza, e imaginei que era também para evitar a superpopulação de roedores. Adorei, abraços.
    Stefanie Elidiana

    • gabiheli disse:

      Oi, Stefanie
      Muita gente tem um medo desproporcional de cobras. Mas conhecer a importância delas é o primeiro passo para uma convivência pacífica.
      Para começar a vencer o seu medo, pense em quantas pessoas você conhece que já foram mordidas por cobras e quantas pessoas que você conhece que já mataram ou matariam uma cobra, se as vissem. Depois fica fácil de saber qual o animal mais perigoso…

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