Mamíferos noturnos não-voadores do JBRJ – por Roberta Costa

robertaQuem escreve esse post é a Roberta Costa, a estagiária do Projeto Fauna que estuda os mamíferos noturnos não-voadores (não-morcegos! rs) no Jardim. (Veja mais sobre ela em equipe).

Dentre as opções da fauna presente no JBRJ optei por pesquisar os mamíferos noturnos não voadores que habitam o Arboreto. Essa escolha foi feita levando em consideração a enorme quantidade de rastros encontrados em diversos pontos.

Observei que diversas pegadas encontradas não se encaixavam no padrão das pegadas deixadas pelos animais que são de hábitos diurnos. Então surgiu a idéia de pesquisar quem são esses visitantes e/ou moradores que passam pelo Arboreto em um horário que quase ninguém vê, analisando suas áreas de uso e hábitos em geral.

Armadilha com um gambá. Elas não oferecem perigo aos animais, que são soltos novamente após identificação e registro.

Armadilha Tomahawk com um gambá. Elas não oferecem perigo aos animais, que são soltos novamente após identificação e registro.

No passeio noturno que ocorre mensalmente no JBRJ, já foi possível capturar gambás e cuícas através de uma armadilha de gaiola chamada tomahawk.

No caso da minha pesquisa serão utilizados dois tipos de armadilhas: a armadilha fotográfica e a que utiliza plotes de areia.

A armadilha fotográfica é um método muito eficiente pois facilita a identificação de animais noturnos, quando não há possibilidade de usar outros tipos de armadilhas. As câmeras utilizadas são específicas para esse tipo de trabalho. Possuem sensores de movimento e assim que um animal passa, ela fotografa ou filma.

Já os plotes de areia, são “caixas” com areia ou até mesmo gesso que permitem que a pegada do animal que passar por dentro dela fique marcada.

No segundo dia em que deixei a câmera por 24h, foram registradas a presença de animais invasores, como por exemplo cães e gatos. E também, para a minha surpresa, consegui registrar a presença de um grupo de 4 indivíduos conhecidos como mão-pelada ou guaxinim (Procyon cancrivorus).

mão-pelada no JBRJ registrado pela armadilha fotográfica

mão-pelada no JBRJ registrado pela armadilha fotográfica e rastros de pegadas

Filhote de mão-pelada cuidada pelo Projeto Fauna

Filhote de mão-pelada cuidada pelo Projeto Fauna

O mão-pelada é um mamífero com ocorrência em toda a América Latina, leste da Costa Rica e Peru até o Uruguai, mas são raros ao longo da sua distribuição. Esta espécie é principalmente noturna e são bons escaladores e nadadores. Possui o tato bem desenvolvido e usa as mãos regularmente (semelhante aos macacos) para conduzir o alimento até a boca. Sua dieta consiste de crustáceos (caranguejos), frutos, insetos e outros artrópodes, e vertebrados.

Considerada pela IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza) como “pouco preocupante” em relação a possibilidade de extinção. Mas, segundo a lista Municipal do Rio de Janeiro de espécies ameaçadas de extinção, Procyon cancrivorus estaria vulnerável.

Dentre outras espécies de mamíferos noturnos que habitam o Arboreto do JBRJ, podemos citar a Cuíca-lanosa (Caluromys philander). Ela ocorre em áreas florestadas no leste e norte do Brasil, com hábitos noturnos, solitários e arborícolas, por isso raramente são vistos. Sua alimentação é composta de flores, frutos e insetos. Esta espécie é considerada pouco preocupante pela IUCN em seu risco de extinção.

cuica

cuica-tres-listrasOutra espécie de cuíca que encontramos no JBRJ é Cuíca-de-três-listras (Monodelphis americana) que tem pequenas dimensões, com cerca de 12cm. Vive em áreas florestadas, mas possui hábitos terrícolas. Ocorre apenas na costa da Mata Atlântica do nordeste e sudeste brasileiros. Sua alimentação é basicamente composta por insetos, podendo se alimentar de outras coisas. Segundo a IUCN, seu estado de conservação ainda é pouco preocupante, mas alertam para o decréscimo em sua população.

Um grande conhecido da fauna noturna do JBRJ é o Gambá (Didelphis aurita), espécie comumente confundida com ratos e cheia de “mitos”. É um marsupial como as cuícas, porém com o marsúpio, que é uma espécie de bolsa para abrigar os filhotes (como o canguru australiano). Conhecido como um animal de odor desagradável, essa lenda não é verdade. O famoso “cheiro de gambá” é proveniente de outra espécie confundida com ele, a Jaritataca ou cangambá (Conepatus semistriatus) que não tem ocorrência no Rio de Janeiro e foi eternizada pela famoso personagem da Disney Pepe Le Pew. Esta espécie pode realmente se defender se utilizando de um odor fétido, diferente do gambá que só tem odor ruim por causa de suas fezes. É uma espécie que come de tudo e muitas vezes é encontrado revirando lixo.

Gambá adulto observado em vida livre e filhote cuidado pelo Projeto Fauna

Gambá adulto observado em vida livre e filhote cuidado pelo Projeto Fauna

Mais uma espécie noturna cercada de mitos e presente no JBRJ é o Ouriço-cacheiro (Coendou villosus). É uma espécie diferente que tem o corpo coberto por pelos adaptados em forma de espinhos, usados para a defesa de possíveis predadores. Tem hábitos noturnos e arborícolas, já foi visto se equilibrando entre fios de telefonia por todo o bairro do Jardim Botânico. Se alimentam de frutas, folhas e cascas. Muito confundido com o porco-espinho africano (Hystrix cristata) que pouco lembra esta espécie. Possuem um odor característico muito forte. Contrariamente ao que todos pensam, o ouriço-caixeiro não tem a capacidade de “lançar” seus espinhos e somente quando sua pele é pressionada, os seus espinhos podem se soltar, prendendo como pequenas lanças em seu agressor. Essa espécie não está ameaçada de extinção, segundo a IUCN.

Ouriço-caxeiro dulto em vida livre e filhote cuidado pelo Projeto Fauna (nosso querido Fofura)

Ouriço-caxeiro dulto em vida livre e filhote cuidado pelo Projeto Fauna (nosso querido Fofura)

Tamanduá MirimTemos ainda o Tamanduá-mirim (Tamandua tetradactyla). Como o mão-pelada, é considerado vulnerável segundo a lista Municipal do Rio de Janeiro de espécies ameaçadas de extinção. Animal arborícola, solitário e noturno, possui coloração amarela pálida e um “colete” preto. Possui longas e afiadas garras nas patas, que os auxiliam na tarefa de buscar seu alimento: cupins e formigas. Ocorre da Venezuela ao norte do Uruguai.

Outro habitante de hábitos noturnos do Jardim é o tatu-galinha (Dasypus novemcinctus). Essa espécie tem uma distribuição ampla nas Américas, desde os Estados Unidos até o norte da Argentina. Ele possui carapaça quase inteiramente nua (sem pelos), bastante convexa e lateralmente comprimida, com nove cintas de placas móveis, cabeça alongada, olhos pequenos, orelhas grandes, cauda comprida, cônica e de ponta fina. Ele pode chegar a 80cm quando adulto.

tatu

Como se pôde observar, a fauna de mamíferos noturnos do JBRJ é bastante diversa e durante a pesquisa ainda podemos ter a surpresa de descobrir novas espécies que frequentam e habitam o Arboreto.

No Passeio Noturno muitas vezes temos a sorte de visualizar alguns desses animais. Quer ter a sorte de observar esses animais em vida livre? Participe dos Passeios Noturnos conosco! Para conhecer mais sobre o passeio noturno clique aqui.

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Sobre Cris

Carioca, flamenguista, bióloga, primatóloga, viajante, casada. Metida a fotógrafa.
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