Controle populacional de saguis exóticos: o que, como, porque?

Kadu+CrisEsse post foi escrito em conjunto pela Cris, Gabi e Kadu Verona, o veterinário do Projeto Fauna.

O Projeto de Conservação da Fauna do JBRJ desenvolve várias atividades de manejo com os animais silvestres. Um dos principais é o monitoramento e controle populacional de primatas exóticos, entre eles os saguis. Os saguis-de-tufo-branco (Callithrix jacchus), de tufo-preto (C. penicillata) e suas formas híbridas são animais exóticos com alto potencial invasor. Por isso nos envolvemos em trabalhos para conhecer e controlar os impactos, tentando amenizar o problema ambiental que esses animais causam.

O estudo, licenciado pelo IBAMA (licença número 20435-2, de 04/03/2013) está sob a coordenação do veterinário Dr. Carlos Eduardo Verona (Instituto Tríade, de Medicina da Conservação e UERJ) e da bióloga Cris Rangel, além de uma equipe de veterinários e biólogos de laboratórios da Fundação Oswaldo Cruz, da UFRRJ, da UERJ e da UFRJ. Estamos desenvolvendo um estudo piloto de esterilização controlada dos saguis dentro do saguis-P1140025arboreto, através de vasectomia. Também aproveitamos o projeto para fazer um “checkup” geral dos animais e saber como está a saúde de cada um e da população

Nem precisa dizer porque esse estudo é importante para a biodiversidade local (veja o post sobre saguis), nem o quanto esses animaizinhos simpáticos são predadores ferozes de filhotes de aves, ovos e competem com as espécies originais daqui do Rio. 

Bom, o trabalho consiste em manter plataformas especiais com alimento (que serve como atrativo) e armadilhas tipo gaiola (tomahawks) em pontos específicos. Esse alimento é controlado, para evitar a dependência e a transmissão de doenças. Nesses pontos, observamos o comportamento dos grupos de saguis e monitoramos suas atividades. Precisamos conhecer bem o grupo, sua composição e rotina, até que estejam habituados e frequentando diariamente as plataformas.

Instalação das plataformas com ajuda dos jardineiros (rapel) e das armadilhas tomahawk

Instalação das plataformas com ajuda dos jardineiros (rapel) e das armadilhas tomahawks

Enquanto isso, os estagiários desenvolvem trabalhos ligados aos primatas, como comportamento animal, ecologia e coleta de fezes para análises de saúde, por exemplo.

Equipe monitorando plataforma

Equipe monitorando plataforma

Um belo dia agendado e programado, com os saguis habituados, a equipe e principalmente o veterinário a postos, as armadilhas são ativadas. Como os animais já estão acostumados, eles entram nas armadilhas e acabam presos, sem se machucar. É um exercício de paciência, pois temos que ficar observando o tempo todo: não deixar um possível predador se aproximar, escolher áreas onde o sol não incida nos animais, etc. Várias coisas podem acontecer e temos que estar perto para resolver imediatamente, mesmo que isso signifique soltar os animais. Mas, ainda bem, desde 2007 monitorando e capturando saguis, nunca tivemos problemas deste tipo.

E sempre tem o último dos saguis. O último é aquele sagui espertinho que fica de fora, vê todo mundo cair na armadilha e fica passeando na plataforma, tentando entender o que está acontecendo. Aí só nos resta esperar que ele acabe entrando em alguma armadilha ainda vazia… Não podemos separar os indivíduos do grupo… E precisamos que todos caiam! Afinal, basta 1 machinho não esterilizado para todo o trabalho ir por água abaixo.

Aguardando os saguis entrarem nas armadilhas

Aguardando os saguis entrarem nas armadilhas

Bom, uma vez que tooooodos tenham entrado nas armadilhas, cobrimos elas com um pano para diminuir o estresse dos animais e retiramos as armadilhas das plataformas cuidadosamente.

Momento da captura: equipe a postos

Momento da captura: equipe a postos

Então os animais são levados para o RioZoo, onde eles serão submetidos ao “checkup” e os machos à cirurgia, e ficarão por alguns dias esperando a recuperação. Só os machos adultos serão esterilizados, mas todo o grupo fica junto, aguardando para serem soltos juntos. Enquanto isso, todos recebem marcação individual (tatuagem e colar de continhas), fazem seus exames de saúde e coleta de dados biométricos (peso e medidas). Quando forem soltos, cerca de 1 semana depois, saberemos quem é quem para entendermos melhor sobre seus comportamentos e estado de saúde

Procedimentos de monitoramento de saúde e biométricos, realizados em 10 min, enquanto o sagui está anestesiado

Procedimentos de monitoramento de saúde e biométricos, realizados enquanto o sagui está anestesiado

Nossa expectativa é que, com um grande número de machos esterilizados (tem que ser grande mesmo esse número), a população de saguis estabilize e vá caindo com o tempo. Assim, salvamos todo o ecossistema que não comporta mais esse animal exótico invasor, e predador. Para isso, outros grupos de pesquisa estão trabalhando em outras áreas do Rio de Janeiro, para unir esforços. E assim conservamos nossas espécies nativas!

Soltura de sagui e indivíduos em vida livre com colar de identificação

Soltura de sagui e indivíduos em vida livre com colar de identificação

Colabore conosco e com a fauna do Rio de Janeiro, não alimente animais silvestres aqui no Jardim Botânico, nem em sua casa ou qualquer outro lugar. Desta forma você irá ajudar a natureza a manter seu equilíbrio!

Equipe de 2009

Equipe de 2009

OBS. – As fotos desse post são de capturas de saguis para estudo de saúde e biometria realizadas de 2009 a 2013 (quando ainda não realizávamos vasectomia), com a equipe que passou pelo Projeto Fauna durante esse período.

Obrigada a todos os voluntários que participaram de todas as atividades relacionadas às capturas durante esses 5 anos: equipes de estagiários do Projeto, jardineiros e guardas do JBRJ, veterinários colaboradores (o próprio Kadu, Jefferson Pires e Rafael Nudelman), amigos primatólogos (Mariana Petri, Juliana Monteiro, …), alunos e colegas do Kadu, fotógrafos colaboradores (Gustavo Pedro, José Felipe Monteiro, …), pessoal dos labs da FioCruz, e tantos outros que posso estar esquecendo.

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Sobre Cris

Carioca, flamenguista, bióloga, primatóloga, viajante, casada. Metida a fotógrafa.
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7 respostas para Controle populacional de saguis exóticos: o que, como, porque?

  1. Foi um prazer participar desta equipe ! Nunca me canso de admirar este trabalho !

  2. Nick Ventura disse:

    caramba, vcs ABDUZEM os micos. seus aliens. hehehe.

    • gabiheli disse:

      mais ou menos. Sempre pensei isso, com se fossemos ets em uma investigação do planeta Terra… Me faz sentir um pouco assustada, mas sei que é importante, não só por eles, mas por nós e por todos os bichos. Sem conhecimento, a natureza não sobrevive ao homem…

  3. Laura disse:

    Olá. Aqui em Florianópolis estamos com o problema de excesso de saguis. Moro no bairro Rio Tavares, praia da Joaquina, e a cada dia vejo menos é menos pássaros. Tínhamos muitos canários dá terra, curruira, pássaros verdes, vermelhos e azuis. Não vejo mais nenhum dos mais coloridos. O canário diminui drasticamente, a curruira também. Em minha casa tenho um ninho de madeira pendurado longe dos gatos, mas os macacos sempre vem. Acabaram de nascer 3 curruiras nesse ninho, e fico o tempo todo vigiando o mesmo.
    Hoje vi um sagui na árvore do vizinho, parecia o alfa, bem agressivo, gritava bastante, parecia com muito fome. Os bentevis tentavam espantar o macaco que tentava atacar o ninho dos bentevis.
    O que fazer para diminuir a população de saguis? Qual seu inimigo(predador) natural?
    Esse projeto pode ser feito aqui em Florianópolis?

    • Paulo Sergio Ferreira Costa disse:

      Olá! Também tenho esse problema aqui em Nova Friburgo/RJ. Ainda são poucos, mas sei que com o tempo sua população chegará em níveis insustentáveis pelo ecossistema local.

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