Órfãos selvagens

Filhote de ouriço caixeiro, cuidados parentais.

Filhote de ouriço-cacheiro, cuidados parentais.

esse post foi realizado com a ajuda da Estudante de Veterinária, colaboradora do Projeto, Ellen Schmidt. 

Viver em uma cidade com tanta natureza pode resultar em encontros inesperados com animais selvagens. Esses encontros são facilitados com a expansão imobiliária, habitações próximas de cursos de rios ou áreas florestadas, acidentes naturais (tempestades e outras variações climáticas extremas). A presença de animais domésticos transitando entre a cidade e as áreas florestadas, porém, são uma das principais causas de acidentes.

Pessoas muito bem intencionadas podem, ao encontrar um animal selvagem, feri-lo ou matá-lo quando sua intenção era na verdade ajudar. Principalmente em se tratando de filhotes. Os filhote ou ninhadas podem ser encontrados em um abrigo ou no chão, em torno de nossas casas, por exemplo, ou de forma inesperada em trilhas e junto a estradas. Em qualquer caso, é preciso ter certeza que a mãe não está disponível para os filhotes antes de qualquer tentativa de resgate ou até de aproximação. Muitas vezes apenas retirar os filhotes do caminho (no caso de estradas ou trilhas) é ajuda suficiente, pois a mãe retorna para busca-los.

Filhote de tucano, com um dos pais, após cair do ninho. Os pais continuam os cuidados parentais, por isso o filhote não deve ser removido, observando-se a sua segurança.

Filhote de tucano, com um dos pais, após cair do ninho. Os pais continuam os cuidados parentais, por isso o filhote não deve ser removido, observando-se a sua segurança.

Atividades humanas como o corte de árvores, obras, reformas, animais domésticos, etc. e fenômenos naturais ou provocados, como calor, frio, inundações, entre outros, perturbam ou destroem o ninho, causando a morte ou fuga da mãe e obrigando a família a deixar o abrigo. Os bebês podem cair ou se perder, ou ainda entrar em algo que não conseguem sair, como uma lixeira. É preciso investigar antes de tomar uma atitude. Cuidado para não assustá-los, pois a esperança é que a mãe pode voltar em breve, e ela pode estar vendo você.

Filhote de Procyon cancrivorus. Para essa espécie, assim como para todos os procionídeos e marsupiais o leite pode ser fatal. Seu consumo causa cegueira.

Filhote de Procyon cancrivorus.
Para essa espécie, assim como para todos os procionídeos e marsupiais o leite pode ser fatal. Seu consumo causa cegueira.

Com cuidado, caso a mãe não esteja por perto, algumas ações podem ser necessárias. 1º: caso seja necessário o resgate, faça com segurança, pois animais selvagens podem passar doenças, mesmo os filhotes. Eles não sabem que a sua intenção é boa e mordidas e bicadas acontecem, então (no caso de não conseguir resgate com as autoridades competentes, no caso do RJ: Patrulha Ambiental) use luvas, principalmente com filhotes de olhos abertos.

Filhotes de gambá. Cuidado com o sol, pois pode atar os filhotes em poucos minutos.

Filhotes de gambá. Cuidado com o sol, pois pode matar os filhotes em poucos minutos.

2º: Verifique se os filhotes estão com frio. Geralmente é o caso. Para aquecê-los, use um tecido suave e fontes externas de calor. O tecido impede a perda de calor, mas não esquenta. Lâmpadas e bolsas de água quente (ou uma pet com água quente) podem ser usadas com supervisão. Cuidado com o ressecamento e queimaduras e evite o contato direto com fontes de calor. Use uma caixa forrada com jornal (isolante térmico) e tecidos macios, abrigada do vento e do sol. Ouriços não devem ser colocados em abrigos com tecido, pois grudam os espinhos. Atenção para furos no tecido e cordéis, que podem sufocar o filhote.

Filhotes de gambá. Animais domésticos podem adotar ou carregar filhotes selvagens, como um brinquedo. Apesar de a predação ser mais comum, esse comportamento também é prejudicial e pode resultar na morte dos filhotes ou na transmissão de doenças.

Filhotes de gambá. Animais domésticos podem adotar ou carregar filhotes selvagens, como um brinquedo. Apesar de a predação ser mais comum, esse comportamento também é prejudicial e pode resultar na morte dos filhotes ou na transmissão de doenças.

3º: Ao conter o filhote, verifique se há sinais de diarreia e sangramento ou secreções, com atenção para ouvidos, boca, olhos, vias aéreas e ânus e genitais. Se existem parasitas ou feridas na pele. Observe se demonstra dor em algum local específico, como membros, juntas ou abdome.

passarinhos tem necessidades muito específicas. Nunca dê leite. Algumas informações podem ser encontradas em livros especializados e no site Wikiaves.

passarinhos tem necessidades muito específicas. Nunca dê leite. Algumas informações podem ser encontradas em livros especializados e no site Wikiaves.

4º: alguns filhotes precisarão de ajuda para urinar/defecar, principalmente entre mamíferos imaturos. Isso pode ser realizado com um pano, algodão ou papel úmido, preferencialmente morno, aplicado  em movimentos circulares nos genitais e ânus, como se fosse o estímulo da mãe.

5º: Hidrate o filhote antes de alimentar. A alimentação oferecida, inicialmente, deve ser leve e hidratante, para não sobrecarregar o sistema digestivo e fornecer alguma energia de queima rápida. Algumas receitas para alimentação de filhotes estão disponíveis AQUI (em breve).

filhote de Monodelphs americana. O adulto é tão pequeno que costuma ser confundido com um rato ou mesmo co um filhote de algum animal

filhote de Monodelphs americana. O adulto é tão pequeno que costuma ser confundido com um rato ou mesmo co um filhote de algum animal

NUNCA FORNEÇA LEITE DE VACA. EVITE LEITES DE CABRA OU EM PÓ.

ATENÇÃO AO CUIDAR DE FILHOTES PARA NÃO DOMESTICÁ-LOS. ISSO DIMINUI A CHANCE DE REINTRODUÇÃO NA NATUREZA.

Procure um veterinário, sempre. De preferência especializado em vida selvagem. Somente ele poderá avaliar a situação do filhote e o tratamento e alimentação a serem oferecidos. Animais selvagens, resgatados na cidade do Rio de Janeiro, devem ser encaminhados a Clínica de Reabilitação de Animais Selvagens em Vargem Pequena, diretamente ou via Patrulha Ambiental.

filhote de murucututú. Apesar de linda e "fofa" essa coruja, mesmo filhote, pode ferir gravemente com suas garras e bico. Corujas e gaviões que não comem cálcio, como ossos de suas presas, costumam desenvolver osteodistrofia, que é incapacitante.

filhote de murucututú. Apesar de linda e “fofa” essa coruja, mesmo filhote, pode ferir gravemente com suas garras e bico. Corujas e gaviões que não comem cálcio, como ossos de suas presas, costumam desenvolver osteodistrofia, que é incapacitante.

ATENÇÃO! ANTES DE QUALQUER TENTATIVA ACIMA, Para resgates ligue 1746, aguarde a gravação até falar com um atendente e informe que existe um problema com animal silvestre. O atendente reencaminhará a situação para a Patrulha Ambiental, que realiza o resgate em até 72 horas (geralmente em menos tempo). Só tente fazer o resgate se realmente souber o que está fazendo ou na impossibilidade de um órgão competente chegar.

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9 respostas para Órfãos selvagens

  1. Deise Freitas disse:

    O telefone 1746 não é gratuito. Liguei de um celular e foram consumidos todos os meus créditos!

  2. Pheterson Farias Aprigio disse:

    Hoje andando num parque com minha esposa, encontramos em meio a um bambuzal uma gambá morta e junto dela e estavam seus dois filhotes, bem novinhos, e trouxemos para nossa casa a fim de encontrarmos uma ong que cuide desse tipo de animal, por favor, se conhecem alguma ong entrem em contato. Somos de Conceição de Macabu-RJ, Telefone para contato (22) 991033875. Desde já obrigado!

    • gabiheli disse:

      Infelizmente não temos muitos braços para essa ajuda…
      Nunca use leite de vaca para alimentar os bichinhos, prefira o leite de soja, como o nan soy ou similar. Ofereça frutas e assim que elesconseguirem comer sozinhos, devolva a liberdade..
      Boa sorte.

  3. bianca disse:

    gente achei dois filhotes de timbu no meu quintal um morreu mas o outro ta quase morrendo eu nao sei oque fazer me ajudem. em pernambuco tem algum numero que eu posso ligar

  4. Pingback: Retorno | Núcleo de Conservação da Fauna do JBRJ

  5. Jeconias ouverney de Souza disse:

    Meu cachorro matou uma gambá ela estava com 7 filhote consegui salvar eles ,gostaria de saber como eu faço para entregar eles a defesa ambiental

    • gabiheli disse:

      Caro Jeconias
      No Rio de Janeiro o procedimento é ligar para o 1746 e solicitar à patrulha ambiental para fazer a retirada dos filhotes. Cada município, porém, terá um procedimento. O ideal é buscar essas informações junto ao órgão responsável no seu município.
      Quanto aos filhotes: Pode ser feito soro caseiro nas primeiras 24h. Após isso é preciso iniciar a alimentação com fórmula de leite de soja tipo Nan. NUNCA USE LEITE DE VACA. Os filhotes devem ser mantidos aquecidos e, para ajudar, uma meia felpuda pode ser um bom meio deles se esconderem. Uma fonte de calor auxiliar deve ser providenciada, como uma garrafa pet com água quente, bolsas de água quente, etc, sempre observando a temperatura para que, ao esfriarem, sejam imediatamente trocadas. Lâmpadas incandescentes também podem ser usadas, observando-se que os animais tenham como se esconder da luminosidade e cuidando do ressecamento provocado pela lâmpada. Das duas formas é preciso providenciar que os filhotes tenham como fugir ou se aproximar da fonte de calor, para que possam regular quanto aquecimento eles querem.
      Caso já tenham os olhos abertos, pode oferecer papa de frutas com um pouco do nan.
      Boa sorte.
      Quanto ao cachorro:
      Evite deixar o prato com ração durante a noite ou com restos que possam atrair os gambás. A lixeira também deve ser fechada com cuidado e ser a prova de gambás. Eles costumam entrar nelas para roubar lixo. Árvores frutíferas também são um atrativo, nesse caso sugiro restringir o acesso do cachorro nos horários de atividade de fauna. Em alguns casos é possível treinar o cachorro para ignorar os gambás, mas será necessário um treinador profissional.
      Obrigada

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